Eu Sou Um Produto – diar.pt2

Sabem como eu tava planejando terminar o hiato do blog? Com um post sobre a ContraPoints, e consequentemente, sobre a Natalie Wynn, e fazer alguns comentários sobre o que a morte do autor significa na era do youtube. Mas com toda a minha paranoia sobre privacidade e objetificação (descrita aqui, leia antes de prosseguir, por favor), eu não acho mais que eu tenho qualquer direito de me meter no trabalho da Natalie. Porque ser uma mulher trans na internet…

Não.

Ser uma mulher trans em público é uma bosta.

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Não Existe Liberdade no Capitalismo Tardio – diar.pt1

Cigarros tem gosto de liberdade. Poucas coisas se igualam ao sabor do tabaco queimando. Se você tá fumando você tá pouco se fodendo pras consequências, principalmente no Brasil onde você tem que fazer um esforço ativo para ignorar os avisos violentos atrás da carteira. Mesmo assim é uma prisão da qual 34% da população brasileira não consegue sair. Eu posso pensar que cigarro tem gosto de liberdade, mas o que é liberdade memso?

Desde o primeiro turno das eleições de 2018 eu tenho estado extremamente paranoica com produção e exposição algorítmica em redes sociais. Tentando fazer o melhor possível do ativismo de internet eu me senti recebendo um milhão de socos na barriga, um seguido do outro, pela forma como eu percebi que a internet foi roubada das usuárias há muito tempo pelas grandes corporações.

Eu sempre usei o Facebook como uma ferramenta de expressão pessoal. Todos os meus sentimentos, conquistas, derrotas e vitórias eram meticulosamente registrados em forma de texto (porque eu não gosto de fotografias) no Facebook, no meu blog; e no orkut e nos fóruns quando esses existiam. Em um mundo material onde eu me sentia presa ao meu próprio corpo a internet era o gosto de liberdade. Onde eu podia ser o que eu quisesse ser e falar o que eu quisesse. E é daí que vem a comparação com cigarros. Só tem gosto de liberdade, mas na verdade se tornou uma prisão.

O capitalismo tem uma tendência de destruir as coisas que a gente gosta e transformar elas em produtos. Nada mais justo, então, do que ele seguir o seu curso natural e transformar as pessoas em produtos. A Souza Cruz vende cigarros. O Mark Zuckerberg vende gente.

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Para nos tornarmos melhores do que nós mesmas

Ontem a noite, muitas de nós pensamos em desistir. Foi coisa demais pra uma noite só. Nossas famílias parentes e amigos – mais de 49 milhões de pessoas – nos traíram.
A gente se sente derrotada. O Bolsonaro nem venceu ainda e as redes sociais estão borbulhando com crimes de ódio contra nós.

As mais vulneráveis entre nós pensam em fugir pro Uruguai, Argentina ou Europa. E eu empatizo com elas, e desejo sorte no que decidirem fazer, mas A Onda do fascismo não parou nas fronteiras da Alemanha, não parou nas fronteiras dos Estados Unidos, e certamente não vai parar nas fronteiras do Brasil.

Não vou dizer pra ninguém fazer algo que se sinta desconfortável fazendo, mas estamos todas no mesmo barco, e a luta contra o fascismo é maior do que qualquer uma de nós. Mais do que nunca é hora da gente se unir, e militar como nunca militamos antes.

Existem duas coisas que nós devemos fazer agora que o segundo turno mais importante da história do país está há semanas de distância: Continuar lendo

Eu Não Quero Mais Fazer Jogos

Dia 29 de Junho de 2018. Acabei de voltar de um pequeno grande evento chamado Glitch Mundo, que foi criado por um pequeno coletivo de desenvolvedoras independentes ao redor do país como uma resposta ao BIG Festival.

E conversando com aquelas pessoas e refletindo sobre o meu papel naquilo tudo, chego à conclusão de que: Eu não quero mais fazer jogos. Continuar lendo

Mas Naquela Época! História do Preconceito Sexual na Fantasia Medieval

Trigger Warning: Weird Tales. As Crônicas de Gor. Não tente satisfazer sua curiosidade mórbida.

Enrolei pra caralho. Mais de um mês, mas aqui estou de volta ao reino dos mortais para falar de Fantasia Medieval e do porque eu gosto tanto de Dragon Age e não consigo calar a boca sobre esse negócio. Mas antes de falar da desconstrução do gênero, é bom a gente falar da construção dele. Em específico sobre a relação dele com preconceitos sexuais.

Da última vez nós falamos da origem dos preconceitos sexuais no nosso mundo. E aquela foi uma discussão extremamente interessante e elucidativa, mas por que ela é importante pra falar de fantasia? Fantasia é o que quer que surja nas nossas imaginações, não é mesmo? Então por que isso deveria importar? Continuar lendo

Mas Naquela Época! Introdução & História do Preconceito Sexual

Fantasia Medieval. Meu gênero de ficção favorito pra ser honesta. Ele nos da dragões, magia, e uma base semelhante o suficiente a história do nosso próprio mundo pra explorar problemas mais pé no chão que talvez não sejam possíveis nos gêneros de ultra-high-fantasy ou sci-fi.

Okay, talvez isso seja só uma desculpa pra um certo fetichismo nórdico criado por Tolkien. Mas é um gênero MUITO popular! Principalmente no mundo do RPG. E justamente por ser tão popular ninguém pensa muito sobre. “Ah, é só mais um D&D” pensam os céticos quando olham pra uma caixa de Dragon Age. Mas o conteúdo dessas caixas escondem muito mais do que cavaleiros e dragões.

John R. R. Tolkien, Robert E. Howard, Dave Arneson e Gary Gygax criaram todas as regras silenciosas da Fantasia Medieval que ninguém questiona ou põe a prova. E os seus trabalhos eram abertos o suficiente (principalmente do Gygax) pra que qualquer suposição que o seu publico alvo tenha sobre a realidade acaba entrando ainda mais silenciosamente dentro desse léxico fantástico.

E eu quero desafiar esse léxico. Muita gente gosta de usar esse gênero de fantasia pra justificar comportamentos preconceituosos, usando principalmente do argumento “MAS NAQUELA ÉPOCA”. E é disso que se tratará essa série de textos. Eu quero desafiar a noção do público da Fantasia Medieval. De o que “aquela época” significa. E com isso talvez você saia daqui aprendendo alguma coisa nova. Continuar lendo

O Dia Internacional da Mulher Não É O Meu Dia

Bom. Você pode estar se perguntando agora por que eu não postei nada ontem.

Todos os outros blogs e sites fizeram alguma coisa. E é uma data importante pra caralho. Até o Governo do Estado do Paraná e a Prefeitura de Curitiba fizeram uma grande homenagem ao dia dessas pessoas maravilhosas que consistem de mais da metade da população mundial (mais ou menos).

Então o que há? “Você não é mulher, Felicia?”

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Representando a expressão não binária

Deusa abençoe a desenvolvedora que apareceu pra falar comigo ante-ontem pedindo conselhos sobre inclusão não-binária pro jogo dela.

Sério, amiga. Sem você eu não teria o que postar esse mês no  blog (mentira, teria sim, mas eu to enrolando o máximo possível pra falar sobre o assunto que eu tenho guardado aqui comigo).

Então vamos falar sobre expressão de gênero e o que fazer pra incluir pessoas não-binárias na sua obra. Continuar lendo

Persona 5 Um Problema de Idades?

CW: Discussão sobre pedofilia.

Persona 5 é um joguinho complicado né? Não, não mecanicamente. Ele é complicado de se falar sobre os temas. E não, não é por causa que os temas são pesados. E sim porque as mensagens que ele passa são contraditórias.

E dependendo do seu olhar, o jogo parece ter umas definições um pouco maleáveis demais do que é ou não é uma relação sexual aceitável. É uma questão complicada de um jogo complicado vindo de uma cultura complicada. E eu quero falar dessas complicações.

Spoilers adiante. Continuar lendo