Jogo de Afirmação de Papéis

Gênero é uma construção. Um papel que interpretamos para nós mesmes e para as pessoas ao nosso redor. Uma interpretação que dá um senso de ser para nós mesmes e para as outras pessoas. Afirmamos os nossos gêneros vivendo eles, e afirmamos os gêneros das outras pessoas interagindo com ela (quer essa afirmação esteja certa ou errada).

Expressão de gênero é como jogar RPG.

E jogar RPG é minha forma favorita de expressar o meu gênero para mim mesma.

Eu não sei vocês, mas eu sinto uma constante necessidade de afirmar o meu gênero. Por ser trans e ter minha feminilidade questionada o tempo todo, e por ser mulher e ter minhas capacidades questionadas o tempo todo. Sem afirmar meu gênero, eu me torno nada, e me tornando nada, eu me torno masculina. E nada me entristesse mais que esse pensamento.

A constante afirmação da minha identidade de gênero é uma necessidade quase fisiológica. E é estranho pensar nisso sabendo que gêneros não passam de construções sociais.

Nós garantimos que as pessoas reconheçam quem nós somos interpretando as nossas próprias personagens e os nossos gêneros, escolhendo um conjunto de roupas, atitudes, ações e palavras que refletem o que nós queremos dizer para o mundo e para nós mesmes.

Tirando homens cis, ninguém nasce com um gênero. Nós nos tornamos esse gênero através dos nossos atos, que mudam a visão des outres sobre nós, e de nós sobre si.

É como jogar um RPG em que a única personagem com quem você pode pode jogar é você. O modelo da personagem não é muito maleável, algumas desvantagens ficarão anotadas na sua ficha para sempre, mas ainda dá pra trocar de equipamento quando quiser e escolher várias opções de diálogos diferentes. E quanto mais a sua personagem for parecida com o seu eu interno, mais satisfação você irá tirar do jogo!

Mas sejamos sinceras. No mundo real as pessoas não gostam de gente que é plenamente ela mesma.

Como já falei nesse texto, eu não sou a mais binária das mulheres. O gênero que eu interpreto, que foi construido nas minhas experiências, convicções e angústias pessoais ao lado dos meus antecedentes culturais, normalmente é visto como “errado”. Algo que não faz sentido. Que deve ser “consertado” ou “normatizado”. Negação atrás de negação de quem sou eu, fazendo com que muitas vezes eu sinta que não sou absolutamente nada, e portanto, masculina.

Ou mesmo em situações em que o meu gênero é simplesmente lido como feminino, sem qualquer relação com a minha transgeneridade, pode criar situações bastante estressantes. Sabe quando aquele carinha não acredita que você entende de League of Legends e pede provas do seu conhecimento? Ou quando alguém simplesmente nega seus argumentos sobre o processo de criação de personagens de Dark Souls porque você é uma mulher e não deveria saber nada? Poisé. Será que a minha feminilidade diminui minha capacidade ou é a minha capacidade que diminui minha feminilidade?

Não importa. Ambas as afirmações estão erradas. Eu sou uma mulher e sou capaz. Sei disso, mas às vezes é difícil de me lembrar. Faz parte da dificuldade desse jogo de afirmação de papeis.

Mesmo na quietude de momentos e lugares seguros, o tédio e o vazio de sentimentos e sentidos vêm acompanhados das lembranças das violências cometidas contra a minha identidade. Me sinto mal por não estar agindo de forma alguma, e a necessidade de afirmar o meu gênero para mim mesma surge.

Eu interpreto comigo mesma para derrotar monstros da minha masmorra interna. Boto vestidos, maquiagem, falo de mim mesma na internet, me afirmo como Felicia na atuação de ser eu mesma, e deixo de “não ser nada” para ser a mulher que vos fala. E eu pelo menos me sinto bem melhor assim.

E dentre as coisas que eu faço para me afirmar como a mulher que eu sou, é jogar RPGs eletrônicos. Mais especificamente, CRPGs.

Como foi afirmado de novo e de novo, por vários meios de comunicação, CRPG é o gênero de jogo eletrônico mais popular entre gamers LGBT. Em CRPGs nós somos completamente livres para não apenas sermos quem somos, como para ser uma versão idealizada de nós mesmes.

Eu me afirmo comigo mesma criando uma inquisidora chamada Felicia Trevelyan que se recusa a matar pessoas, e só usa técnicas de combate não-letais, e mesmo sendo humana luta pela inclusão social de elfos, e mesmo sendo extremamente religiosa, luta pelo desbravamento do Imaterial e pelo reconhecimento dos bons espíritos. Me afirmo comigo mesma interpretando uma dragonborn kahjiit, que não tem medo de desafiar a supremacia humana e tem um relacionamento lésbico poliamoroso saudável com outras 3 mulheres. Me afirmo comigo mesma quando minha comandante Shepard tem cabelo roxo maneiro, e mesmo sendo uma mulher polisexual que normalmente prefere mulheres, não conseguiu não se apaixonar pela doçura do Thane, e naturalmente aceitou a fluidez da sua sexualidade.

Em CRPGs podemos ser nós mesmes sem muitas represalhas, e sem os pesares e cobranças da vida real. Pra mim não tem nada que afirme mais quem eu sou do que um bom momento na frente da televisão ou do computador, jogando um bom CRPG.

E CRPGs são os gêneros das maiores mudanças de paradigma da nossa indústria desde sempre. Agora com empresas como a Bioware apostando em histórias e NPCs extremamente inclusivas e diversas e empresas, como a Bethesda fazendo jogos em que as NPCs romançáveis são todas, tecnicamente falando, bissexuais, para que a jogadora tenha liberdade total para criar a própria realidade.

CRPGs são tanto jogos de interpretação de papeis quanto jogos de afirmação de papeis, em que um ambiente virtual seguro é criado para que possamos nos afirmar para nós mesmas de uma forma que nem mesmo um espelho conseguiria. Em que podemos afirmar nossos melhores ideais. E isso é maravilhoso.

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3 comentários sobre “Jogo de Afirmação de Papéis

  1. Julie disse:

    Fiquei super pensante com esse texto, e acho ótimo quando tu faz postagens pessoais ou que misturam com teu pessoal :3 Enriquece o que você escreveu de um jeito…

    Esse trecho em particular me deixou pensando: “Tirando homens cis, ninguém nasce com um gênero. Nós nos tornamos esse gênero através dos nossos atos… ” sem nada mais a declarar, só fiquei muito pensante com ele haha ;p

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