Game Design: Fina Arte Popular

Eu costumava achar que Game Design era uma coisa difícil de se aproximar. Que eu estava, de alguma forma, num tipo de elite de pessoas que sabem o que faz um jogo bom ou ruim. Não demorou muito pra que essa ideia estúpida saísse da minha cabeça, afinal, não há nada de inerentemente complicado demais em relação ao design de jogos.

Além disso, Game Design é uma arte nova, com ideias de pessoas jovens regando ela, e sendo disseminada por meios populares de comunicação (a.k.a. internet). O conhecimento tradicional acadêmico sobre Game Design é pequeno por causa disso, e as possibilidades do estudo formal dessa arte são tão limitadas que faz parecer que é uma arte para poucos. Mas é justamente o contrário que acontece.

Se você joga jogos e é capaz de compreender suas regras, você compreende Game Design. E não existe forma de arte mais popular, rentável, e bem sucedida entre todas as classes sociais do que videogames nos dias de hoje, superando até mesmo a indústria musical e do cinema.

Você pode jogar jogos em qualquer lugar. Consoles, portáteis, computadores, celulares, um pedaço de papelão com umas parada escrita, uma quadra de esportes… Se você é capaz de entender um jogo, você é capaz e fazer um jogo.

É claro, existem alguns conceitos, ideias, observações e técnicas que podem ser aplicadas na criação de jogos que normalmente só seriam aprendidas com tentativa e erro, ou com cursos e discussões dentro de alguma sociedade acadêmica sobre o assunto. Mas esse não é o caso aqui. Todo o conhecimento que game designers conseguem sobre a sua arte está completamente disponível na internet, distribuído das maneiras mais populares possíveis.

Pra se aprender game design, não é o caso de se abrir um livro de 200 páginas com linguagem chata. Existem milhares de pessoas na internet espalhando seu conhecimento de forma rápida e divertida de se consumir.

Olhe, por exemplo, a série Sequelitis do Egoraptor no youtube, em que ele fala numa linguagem extremamente familiar, simples e engraçada sobre Level Design e Combat Design. Ou o canal Extra Credits no YouTube, em que eles usam os deseinhos mais fofos da terra pra ilustrar conceitos de Game Design.

Então conhecimento sobre Game Design é fácil de consumir, mas e coisas tipo programação, design sonoro e arte visual?

Arte visual e design sonoro é algo que a maioria das pessoas já está predisposta a aprender na cultura em que nós vivemos, quer seja por talento ou por fascínio. E não há falta de cursos e tutores que podem ensinar as pessoas a trabalhar com essas artes antigas (na verdade, há uma prática que eu notei aqui no Brasil de cursos de artes visuais se disfarçando de cursos de Game Design. Isso me irrita um pouco, mas é assunto pra outro post). A aplicação delas em videogames ocorre de forma natural.

A programação, entretanto, é algo que amedronta muita gente. Ainda bem que existem várias engines de videogame que não exigem qualquer conhecimento de programação para serem usadas, como o RPG Maker ou o Stencyl. E vamos lembrar que nem todo jogo precisa de nenhuma dessas 3 coisas.

Esportes ou jogos de quadra não precisam dessas 3 coisas; a maioria dos jogos de mesa só usa arte visual pra conceber os seus temas; e vários jogos de mesa não usam nem isso (por exemplo, Xadrez, Go, Damas, Cards Against Humanity, Banco Imobiliário, Trench, Abalone, entre outros).

E mesmo que seu interesse seja a criação de videogames, e não jogos de mesa ou quadra, existem várias pessoas na internet disponibilizando gráficos e sons que você pode colocar no seu joguinho, ou vendendo seus serviços para criar sons e gráficos exclusivos.

“Mas fê, jogos são uma parada muito cara de se consumir e de se fazer!”

Não acho que seja verdade. Lembram do Stencyl que eu falei? Ele é de graça. E o Humble Bundle todo ano faz promoções com o RPG Maker, vendendo ele a preços ridiculamente baixos como 2 dólares. Jogos independentes são baratos, e a maioria deles roda em quase qualquer PC. E existe uma parada chamada pirataria, que deixa qualquer jogo extremamente acessível (e por mais que seja uma prática ilegal, eu jamais condenaria alguém que faz isso. É melhor jogar jogos sem pagar do que deixar e jogá-los por não poder pagar).

“Mas algumas pessoas nem se quer tem um computador!”

A maioria das pessoas hoje em dia tem. Nem que seja na forma de um celular barato. Mas digamos que não seja esse o caso. Essa pessoa ainda pode trabalhar com jogos de mesa. Eles são caros de se comprar, lógico, mas podem ser alugados a preços acessíveis, ou emprestados de amigues ou de bibliotecas. E fazer um jogo de mesa costuma ser fácil, já que você normalmente não vai precisar mais do que um pedaço de papel, uma caneta ou um lápis, e talvez uns papelões e materiais de pintura.

Ou essa pessoa poderia criar jogos de quadra.

As possibilidades são muitas, e deveriam ser apoiadas com mais vigor. Qualquer jogo é um jogo.

A popularização do Game Design e da criação de jogos está sendo uma coisa muito grande e importante pra arte e pra indústria de jogos. Bons jogos independentes são lançados a torto e a direito, as discussões sobre a arte se tornam cada vez mais abertas ao público, e, pelo menos na América do Norte, surgiu a “cena queer” do desenvolvimento de jogos, totalmente feitos por pessoas LGBT, e focados em vivências de pessoas LGBT.

Jogos são tão arte quanto qualquer outra mídia. E várias mensagens fortes podem ser passadas através dos jogos, e a popularização destes garante que todo tipo de mensagem possa ser passada através deles.

Na verdade, meu único empecilho com tudo isso, é que quase todo esse material que eu falei aqui está exclusivamente disponível na língua inglesa. E isso é uma barreira muito grande para várias pessoas.

Mais gente aqui no Brasil deveria realizar seus próprios estudos e falar sobre as suas próprias ideias em relação a Game Design na língua portuguesa, pra que mais pessoas aqui tivessem acesso a esse material, e pudessem criar seus próprios jogos e formular as próprias ideias.

Então eu gostaria de convidar as pessoas que leem o meu blog e são game designers a fazerem isso. Juntes nós podemos criar uma cena de jogos muito maior e mais diversa aqui no Brasil. Talvez a gente possa até criar nossa própria cena queer, ou ainda uma “cena transviada”. A gente só precisa falar disso pra mais gente de forma mais acessível.

Precisamos compartilhar nosso amor com outras pessoas pra que elas possam amá-lo também.

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