Sobre Depressão E A Garantia Que Tudo Ficará Bem

Trigger Warning: Depressão, Auto-mutilação, Suicício.

UnTrigger Warning: Isso é uma mensagem de apoio.

Recomendo a leitura deste texto pra a total compreensão do post.

Eu queria fazer simplesmente um post para testar as enquetes do WordPress, ver como elas funcionam e fazer pra vocês umas perguntas bobas, mas quando eu estava editando as imagens de cabeçalho e do Facebook eu notei que eu deveria estar falando de uma coisa muito mais profunda. Não se deve usar a arte da Sol Negro Gwyndolin a toa.

2015 foi um dos piores anos da minha vida. E pouco da sua horrificidade (sim, eu to inventando palavras) tem a ver com trasngeneridade.

Não, minha transição não ajudou no bem estar do meu ano. Meu pai me renegou. Minha mãe me aterrorizou falando de morte. Eu fugi de casa. Eu perdi inúmeras amizades…

Mas também foi um dos melhores anos justamente graças à minha transição. Eu fiz boas amigas. Melhorei as relações com minha mãe. Comecei esse blog.

Não. O que destruiu mu 2015 foi uma coisa da qual muita gente não gosta de falar: Atipicidades Mentais. Depressão. Ansiedade Social. Síndrome do Pânico. Agorafobia.

A cada dia que se passa, eu me sinto uma Gwyndolin. Trancada no meu quarto. Cercada por ilusões de um mundo melhor do que o que eu jamais vivi, sentada diante de um caixão de mortes figurativas (o pai de Gwyndolin nunca morreu de verdade). Me escondo dentro dos meus robes, e quando meu nojo de mim mesma não é barrado nem por isso, tiro satisfação da violência. A Gwyndolin manda seus seguidores matarem os “pecadores”, e eu, sem seguidores, mato a mim mesma.

Unhas afiadas, facas e giletes são minhas seguidoras, e eu sou a pecadora. Eu sinto que não mereço viver. Dor e prazer são as únicas coisas que me fazem sentir viva e eu me mutilo. Superficialmente. Nada muito fundo pra não ficar com cicatriz e as pessoas ficarem perguntando o que eu fiz. Sofrimento invisível. Chorando na chuva. Atrás de paredes ilusórias somente acessíveis para quem recebe o meu Anel Mágico.

Uma vez que alguém adentra minhas catacumbas, eu me apaixono e eu odeio. Eu ataco quem tenta me amar assim que ela se aproxima. Um conflito automático. Eu sou violenta na minha tristeza e me irrito quando minha tristeza é interrompida.

É assim que a minha depressão se sente. É assim que eu me identifico com a Gwyndolin. Essa é parte da minha dor refletida numa personagem de videogame.

E só tem piorado.

Eu felizmente nunca cheguei a conhecer o feminismo trans-excludente. Nunca tive que lidar com TERFs. Mas eu conheci o feminismo que não está nem aí pra sua tristeza. O feminismo de Esquerda que só quer saber da sua produtividade para a “Causa”. O feminismo que te ataca se você não for capaz de agir. O feminismo que não quer entender. O feminismo que diz que isso não passa de frescura de gente branca.

E minha Anor Londo – minhas defesas contra a confiança e o amor alheio só ficaram mais fortes. New Game +. E desilusão amorosa atrás de desilusão amorosa desde Outubro até o Reveillon tornaram minha Anor Londo ainda mais difícil. New Game +5 (Nem sei se Dark Souls vai até o +5).

E eu não posso sair da minha Anor Londo. Se eu sair, eu sinto que haverão mortos-vivos me caçando, afim de roubar minhas almas e meu equipamento. Esse é o medo que eu tenho de pessoas.

Da última vez que eu fui numa festa eu LITERALMENTE vi a morte. Parecia que havia uma pessoa vestida numa túnica preta segurando uma grande foice vindo na minha direção. Eu pisquei e vi que era apenas um homem qualquer com boné verde aproveitando o rolê como todo mundo. Todomundo menos eu. Eu senti que eu ia morrer, por mais que fosse A festa mais segura da cidade (organizada por um coletivo de mulheres anti-fascistas da cidade). Esse é o meu nível de ansiedade social.

Eu saí correndo e chorando da festa mais de uma vez, por mais que ninguém tenha feito qualquer mal pra mim.

Esse é o meu nível de ansiedade social nos dias de hoje. Esse foi o tipo de horror psicológico auto-inflingido que eu passei em 2015 e em nenhum ano anterior.

Eu estou com mais medo de viver agora do que nunca. E eu estou me julgando menos merecedora de viver mais agora do que nunca. Mas eu não quero morrer. Por mais que eu tenha passado o reveillon pensando em suicídio eu não quero morrer. Morrer não vai me adiantar de nada. Eu só ia passar um tempo na Terra do Verão e ia voltar a viver logo depois (minha religião). Ia ser um reset, mas meu sofrimento ia continuar lá.

A tristeza. A ansiedade. A depressão.

Isso é muito cansativo. Muito desanimador. É um combinado de tristeza, auto-depreciação, erros, violência (comigo mesma e com as pessoas perto de mim), torpor e aboslutamente nada que me impede de se quer querer mudar minha vida. E na minha tumba eu passo a maior parte do tempo tendo ideias e nunca executando elas.

Eu comecei 8 jogos em 2015 e eu só consegui ter energia pra terminar um (Ele se chama Mercy e você pode jogá-lo aqui. TW: Os mesmos do post) (vocês não sabem o quanta coragem eu precisei pra upar esse jogo e linkar ele nesse post).

Mas ano passado eu encontrei forças pra fazer esse blog. E pra iniciar um projeto secreto junto com Aquele Pedro e Ideias em Roxo e outras pessoas maravilhosas que vocês provavelmente vão ver em fevereiro.

E eu quero arranjar forças pra fazer mais em 2016. E a melhor coisa que eu posso fazer pra ter mais força é: não me pressionar.

O sofrimento de 2015 serviu de pelo menos uma coisa: Para que eu conhecesse meus próprios limites, e não me forçar a ultrapassá-los antes da hora.

Tudo bem eu estar triste. Tudo bem eu estar deprimida. Tudo bem eu ter ansiedade social e não conseguir sair de casa. E por mais que NÃO esteja tudo bem eu ser violenta com pessoas que querem me amar, isso vai passar. Eu reconheço meus erros e um dia serei capaz de não repetí-los, por mais que esse dia talvez não seja hoje.

Acho que esse texto é pra mim mesma. Pra eu dizer pra mim mesma que está tudo bem. Mas também pra todas as pessoas que estão passando por coisas parecidas. Eu sei que não estou sozinha, e se você se sente, de qualquer maneira, alguma coisa parecida com isso que eu descrevi, você também não está sozinhe.

Minhas atipicidades mentais afetam muito mais a minha vida do que eu ser trans, ou do que eu ser mulher. E essa é, principalmente, a advocacia que eu quero fazer. Eu não tenho problema nenhum com ser trans. Eu estou em paz com o meu gênero e consegui criar um meio para mim mesma que também está em paz com isso. Meus problemas de verdade são todas essas outras coisas. E a principal mensagem que eu quero passar pras pessoas desde aquele post sobre o Naoto é…

Vai ficar tudo bem.

Pessoal, é sério. Uma hora, um dia, um momento, vai ficar tudo bem. E todo esse sofrimento estará no passado.

Eu vou ficar bem. Você vai ficar bem. Todes nós vamos ficar bem. Não há vergonha nenhuma em sermos quem somos. Nós melhoraremos como pessoas, não porque nós devemos ter vergonha de quem somos, mas por que nós somos seres magnífiques e nós só temos a melhorar.

Você que passou 2015 sem forças para fazer o que queria, note as coisas pequenas que fizeste. Note seus pequenos triunfos. Lembra daquele dia que você conseguiu sair da cama?!

Lembra daquele dia que você SORRIU?!

Você é capaz disso. Disso e de muito mais. Você está indo bem. Continue no seu próprio ritmo. Você é capaz de qualquer coisa. É só não ter pressa.

Quem quer que esteja lendo isso, saiba que eu te amo. De verdade. Não é todomundo que toma o tempo para ler mais de 1400 palavras na internet. E você deveria se amar também.

Uma das coisas que eu quero ter forças para fazer em 2016 são let’s plays. Eu sempre gravo elas, mas sempre deleto elas antes de publicá-las. Agora eu quero ter força de upar esses vídeos. Se em 2015 eu consegui começar um blog, em 2016 eu consigo fazer isso.

Então me digam… Vocês gostariam de me ver jogando com qual classe em Dark Souls?

 

Obrigada por me acompanharem por todos esses 8 meses.

2016 vai ser melhor que 2015.

Vai ficar tudo bem.

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2 comentários sobre “Sobre Depressão E A Garantia Que Tudo Ficará Bem

  1. Débora disse:

    Olá, só queria dizer que eu amo seu blog, sou trans não-binarie AFAB e me vejo respresentade em muitas coisas que você diz, inclusive nesse post, que me deixou muito feliz em ler. Também sou fotografe e se um dia você colar em São Paulo, gostaria de te convidar pra fazer um ensaio fotográfico comigo, vou até onde o metro for hahaha. No mais, se você fizer let’s plays pode ter certeza que vou ser umas das pessoas a te acompanhar e fazer fanboyzisses :3

    Beijos, sua incrivel <3

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    • feliciaguerreiro disse:

      Esse comentário fez minha noite <3
      Obrigada, linde. Eu provavelmente só vou poder aparecer em SP depois de 2017, mas eu adoraria tirar fotinhas com outras pessoas não-bináries.
      Muito obrigada pelo suporte, e eu fico muito feliz que você goste do conteúdo. É gente como você que me faz sentir que talvez valha a pena continuar viva por mais um tempinho.

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