Terrorismo Doméstico e Sofrimento Empático

TW: Todos. Esse post é horrível.

As meninas das fotos são Keyla França e Leelah Alcorn, ambas mulheres trans vítimas de suicídio. A foto da esquerda foi tirada no desastre de Orlando.

Primeiramente: Pra quem acha que isso é mimimi GGGG branco: Vai se foder. A hostess do evento era uma mulher transgênera porto-riquenha negra e teve outras mulheres, trans e cis, entre as vítimas feridas, mortas e aterrorizadas; e a grande maioria das pessoas na boate eram latinas. E mesmo que as vítimas fossem todas homens gays cis, o que tornaria a situação menos trágica?

No dia 12 de junho de 2016, um cara aparentemente gay que não queria sair do armário estava tão frustrado com a própria sexualidade que decidiu entrar numa das principais boates LGBT de Orlando nos EUA, com um rifle AR-15, pra provar que era macho. Este mentecapto fruto de uma cultura homofóbica matou 49 pessoas e feriu gravemente outras 53. Este imbecil foi morto pela polícia antes que pudesse matar mais alguém.

No dia 27 de maio, 33 homens coletivamente estupraram uma garota de 16 anos no Rio de Janeiro. Muitas outras garotas vítimas de abuso sexual cometeram suicídio quando viram a população brasileira negar o acontecimento diante de provas irrefutáveis. Ninguém ouviria essas garotas e a morte se provou mais atraente do que a luta pela verdade.

E misturando as duas tragédias? Bom, sites de notícia paranaenses cobrem as suas necessidades: No dia 14 de abril, 4 moleques de 15 a 17 anos estupraram e mataram uma jovem travesti de 14 aninhos de idade no interior do Paraná. Eles esconderam o corpo da criança que só foi encontrado uma semana depois. E a morte dessa menina é apenas uma nas mais de 85 mortes de pessoas trans e travestis no brasil que aconteceram SÓ NESSE ANO que não chegou nem na metade ainda. Isso sem contar os suicídios.

E eu chorei com cada uma dessas violências…

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Eu sinto que eu não posso fazer nada pra impedir esse sofrimento. Cada morte de um irmão ou uma irmã ou ume irme trans é uma tragédia. Cada suicídio é um fracasso da minha parte. Cada ato de crueldade é algo que eu não consigo compreender nem em todas as minhas faculdades mentais. Eu me sinto a ativista mais inútil da face da terra. E não é minha culpa.

Como se não bastasse a misoginia nossa de cada dia, a gente tem que lidar com homofobia, lesbofobia, transfobia. Medo de ser, sentir, viver nossas vidas porque alguém nos disse que a gente tá errade. Muites de nós contemplamos suicídio quase todos os dias das nossas vidas. Nossa sociedade nos odeia, e quando reagimos como seres humanos normais em relação a esse ódio (com tristeza ou violência) nos chamam de loucas, insanos, dementes.

E às vezes… A gente fica louca mesmo. Mês passado eu perdi a conta de quantas vezes eu tentei me matar e a única coisa que tem me estabilizado é um coquetel de sei-lá-quantos comprimidos por dia.

Minhas amizades mais do que sábias me dizem que eu devo cuidar da minha própria saúde mental antes de lutar pelas outras pessoas. Mas eis que lhes levanto a seguinte questão: Como eu vou me preocupar só comigo mesma quando a gente tá cercada por todo esse terrorismo doméstico?

O cara que atirou na boate em Orlando não era um estrangeiro estranho gritando “Allahu Akbar” como a mídia estadunidense esta querendo pintar ele. Ele era um FREQUENTADOR DA BOATE. Os homens do caso da menina do Rio provavelmente eram conhecidas dela. E os assassinos da menina T de 14 anos eram seus colegas de classe.

Isso não são “pessoas malvadas de turbante e colete explosivo.” A violência tá vindo do cara que você conheceu no Grindr. Do colega da escola. Do gatinho da festa. DOS SEUS PAIS.

Os pais da minha melhor amiga fizeram algo horrível com ela semana passada por ela ser trans. Eu não posso expô-la, mas eu queria compartilhar meu sentimento com vocês de falta de esperança. Eu não sei o que fazer mais. Cada dia o mundo nos joga uma nova bola na cara e às vezes a gente cai.

Ainda mais quando a gente sabe que esse terrorismo pode nos fazer de vítimas a qualquer momento. Ainda mais quando ele nos faz de vítima mesmo.

Nosso país tem uma expectativa de vida de só 30 anos pra pessoas transgêneras. Quase metade das mulheres pode ser estuprada nas suas vidas (contando, claro, só as denuncias públicas). Mulheres trans? Mortas e estupradas. Não só pelos opressores homens cis héteros, mas pelas próprias pessoas que dizem lutar por justiça social.

O que há com esse mundo em que a violência é normal? E justificável?

Essa última notícia foi a gota d’água pra mim… Notícia que eu não leria se fosse vocês porque ela é pesada demais. Mais pesada que a de Orlando. Ela comprova a normatização da violência da forma mais cruel que eu poderia imaginar (com crianças).

Esse terrorismo que estamos vendo acontecer nesses últimos meses não são o tipo de terrorismo de filmes de ação. Não são as tragédias de Capitão América: Guerra Civil que a gente tá discutindo.

A gente ta falando de quando seus próprios amigos te fazem…

Eu não consigo falar…

Mas é o terrorismo que acontece em casa. Alí. Com o povo vindo do povo. Ódio auto-destrutivo. Ódio que pode matar e humilhar literalmente qualquer pessoa.

Eu não aguento mais todo esse sofrimento alheio misturado com o meu próprio sofrimento. Ás vezes a gente cai… E às vezes a gente não levanta mais.

E eu acho que essa seria minha carta de suicídio pra vocês.

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Mas isso seria extremamente irresponsável da minha parte vendo a minha responsabilidade que eu tenho com vocês depois de 1 ano de atividade.

Eu tenho certeza que não sou a única pessoa que se sente fraquejada com todas essas tragédias. E eu tenho certeza que alguém que é assim, além de mim, vai ler esse post, então, cara…

Tudo bem a gente se sentir triste. É esse sofrimento empático que vai moldar a gente nas melhores pessoas que poderíamos ser. É essa dor no peito e lágrimas derramadas por pessoas que a gente nem conhece que vão nos permitir fazer o bem pra todas essas pessoas quando a gente tiver o poder pra isso.

Nossa empatia não é uma fraqueza. Ela nos faz especiais. Se você já cometeu erros que machucaram outras pessoas, isso não te torna alguém ruim. Mas suas lágrimas te tornam uma pessoa boa. Boa demais pra esse mundo. E é por isso que esse mundo precisa da gente. Pra que algo de bom saia do meio desse inferno.

Mas a gente não se sente especial né? Tudo que a gente sente é essa dor no peito e a nossa falta de capacidade.

Tudo bem… Vamos só nos abraçar por um minuto e lembrar que isso passa e que um dia isso vai nos inspirar a fazer grandes coisas.

Eu espero estar fazendo algum bem pra vocês.

Eu queria terminar o post mostrando pra vocês um poema de minha autoria. Eu originalmente escrevi ele como uma forma de expressar minha inveja pelas pessoas cis no mundo das causas sociais na internet. Mas todo poema tem mais de um significado, e acho que ele também expressa meu atual sentimento de inutilidade para com essas causas.

Espero que vocês gostem e… Não vamos desistir.

Assim que eu puder, posto pra vocês verem minha cobertura das coletivas de imprensa da E3 desse ano. Mas spoilers: Não foi nem de longe tão legal quanto a do ano passado.

Inveja

Ser mulher trans é ser menos que um objeto,
É ser o saco de pancadas de uma academia de boxe.
É ser o alvo de feno em um campeonato de arquearia.
É ter sua dignidade destruída bem diante dos seus olhos.

É fácil se ter orgulho quando seu corpo é celebrado em todos os quatro cantos do mundo.
Objeto de desejo, inspiração de poesia, símbolo de protesto, troféu da independência.

Já a mulher trans, pense, o que lhes acontece nos quatro cantos do mundo?
Objeto de desprezo, inspiração de xingaria, símbolo de protesto, troféu de… absolutamente nada, ninguém o quer.

Ser mulher trans é ser menos que um objeto,
É ser o saco de pancadas de uma academia de boxe.
É ser o alvo de feno em um campeonato de arquearia.
É ter sua dignidade destruída bem diante dos seus olhos.

Este corpo é um estupro, um relacionamento abusivo.
Uma ofensa ambulante que cega as testemunhas.

Este corpo é o martírio da esquerda.
O sacrifício da guerra.
O soldado dispensável que se leva a acreditar valioso.

Este corpo é um pênis.
Um falo nojento, fedido, ofensivo, destruidor
e ladrão de sexualidades alheias.

Este corpo é uma afronta! Algo que não pode ser amado.
Um tanque de dedos do meio que destrói os portões do patriarcado…
Protegendo suas líderes cisgêneras.

Este corpo só serve para morrer

Ser mulher trans é ser menos que um objeto
É ser o saco de pancadas de uma academia de boxe
É ser o alvo de feno em um campeonato de arquearia.
É ter sua dignidade destruída bem diante dos seus olhos.

E nunca ter permissão para amar a si mesa,
nem outras pessoas,
afinal…

“lhe falta uma buceta”.

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