A Fusão Entre Jogadore e Personagem

Fotografia por Priscilla Lacerda do Museu do RPG

Yay! Eu recebi a primeira colaboração da comunidade pro FGD. Blog que a pesar de levar o meu nome, é tão meu quanto de vocês. E esse post é sobre o tal do “bleeding”, um conceito que surgiu no mundo do LARP (Live Action Role Playing) e acabou sangrando pro resto do mundo dos jogos (Eu sou demais com trocadilhos né? Fala sério!)

E eu gostaria de vos lembrar que toda pessoa trans é mais do que bem vinda pra contribuir com o site de qualquer forma!

A FUSÃO ENTRE JOGADORE E PERSONAGEM

Por Flávio “Sol Mas Lua” Schmidlin

No mundo dos jogos e esportes existe uma expressão bastante comum, que é sempre repetida e cria uma expectativa de como se deve agir nos jogos. Diz-se sempre “leve na esportiva”. Mas qual a origem conceitual desta fala?

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Todes nós temos uma concepção intuitiva da ideia de que “não se deve levar os jogos à sério demais”, ou que nós não devemos misturar-nos permanentemente com ume personagem. A ideia é tão antiga que é em torno dela que o conceito de esporte foi desenvolvido. E levando isso em consideração, deve ser mais antiga do que as Olimpíadas da antiga Grécia. Mas para alguns jogos, ela vai além da simples aceitação da competição construtiva. Especialmente para aqueles jogos nos quais nós encarnamos um papel.

Nestes jogos, nós tomamos parte na construção de uma narrativa, mesmo que da mais básica. Nós assumimos uma personalidade e uma função social especiais para a realização do jogo. Isto é bastante claro nos jogos de RPG e larp analógicos (vou assumir o conhecimento dos dois termos nesse texto, se não te são familiares, eu recomendo pausar a leitura aqui e buscar informação sobre o assunto). [NOTA DA EDITORA: Acho interessante falar sobre a diferença de analógico e digital mais tarde, mas acho q todomundo sabe o que é LARP e RPG aqui né? Blz, valeus] Mas também é verdadeiro nos jogos de computador em que são usados personagens e até mesmo nos jogos de baralho. É fato comprovado que a forma como nos vestimos para um jogo, como agimos, ou no caso de jogos de computador, como apresentamos nosse personagem, e até mesmo as regras dos jogos de carta (nós somos diferentes no truco e no poker) [NdE: Elle tá falando de CCGs e TCGs e party games aqui] altera a forma como nós pensamos, agimos e, de maneira genérica, somos.

Esta mescla entre jogadore e personagem, entre atore e papel, foi chamada de bleed (sangramento/vazamento) por Emile Care Boss em uma convenção de 2007. O termo, desde então, espalhou-se rapidamente pelo mundo através das comunidades de larp, extrapolando-se para as de RPG indie, e eventualmente acabou sendo conhecida pela maior parte dos game designers de quaisquer gêneros. De acordo com a Nordic Larp Wiki, “bleed é experienciado por ume jogadore quando seus pensamentos e sentimentos são influenciados pelos de personagem, ou vice versa.” E assim, o bleed pode ter dois sentidos. Nós podemos “bleedar” ao dar aes personagens coisas de nós mesmes, ou podemos “bleedar” quando absorvemos coisas de ume personagem.

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Camarilla Italia

Por muito tempo no larp, o bleed foi uma espécie de tabu. Era algo a ser evitado, coisa de que não se devia falar se acontecesse, que era proibida. Mas então, com a expansão da arte, outras escolas foram surgindo, até que houvesse uma revolução sobre o conceito. As pessoas passaram a buscar o estreitamento jogadore-personagem, e até mesmo a jogar somente para conseguir isto. Mesmo não substituindo a tradição gamista, o larp que ficou conhecido como ‘nórdico’ passou a influenciar o mundo inteiro com sua concepção do sentimento que se sobrepõe à regra.

Mas como muito já se disse sobre o assunto nas comunidades de larp, eu pretendo mostrar como o conceito afeta qualquer tipo de jogo, e como é importante ter consciência das nossas decisões levando em consideração nossos sentimentos sobre ume personagem, e aprender a separar o que é de personagem de si nos momentos apropriados. Mas também absorver-se nas emoções na hora de jogar.

O bleed nos jogos virtuais começa no momento em que escolhemos um papel para ume personagem. Seja uma classe de MMO, ume herói de moba [NdE: Dota-like] ou um armamento específico num FPS, nós lhes escolhemos por ter expectativa de jogar de uma determinada forma. Nós temos em algum nível, limitações de gameplay que “bleedam” para nosses personagens num jogo de computador. Nossa forma de raciocinar, nossa forma de pensar sobre os outros, de agir, nosso campo de conhecimentos, todas estas coisas “bleedam” para qualquer jogo. Aqueles que mandam bem com healers não são es mesmes que mandam bem com tankers. Aqueles que sabem jogar com AK-47 não são aqueles mesmes que cumprem o papel com uma sniper ou um escudo tático. Mesmo que de forma sutil, nós somos forçades a nos investir naquilo que, no larp, nós conhecemos como “próximo de casa”. Num RPG de mesa, muitas pessoas conseguem fazer personagens de vários tipos, mas eles sempre giram em torno de algum padrão. Por que nós bleedamos.

E o movimento recíproco é verdadeiro. Jogos nos emocionam, nos frustram, nos entristecem, nos enfurecem. Quem nunca jogou um jogo online em que es jogadores apresentam-se de formas completamente incivilizadas e encontram xingamentos obscuros para as mães uns des outres? Tudo isso é bleed. Tudo isso é transposição de emoções entre jogadore e personagem. Por conta disso, é prudente quando vamos escolher novos jogos ou tomar noves personagens ou classes, nós pensarmos em como vai nos afetar. Um determinado armamento é realmente o apropriado para si? Você sabe lidar com as emoções que um jogo vai te colocar em questão? Ou ume personagem específico? Como o jogo vai te mudar? Quem você é antes e depois de jogar, é alguém que te agrada mais ou menos? E aes outres?

Se as escolhas foram seguras, nós fazemos muito melhor em nos entregar a elas e imergimos o máximo que pudermos. Assim, aproveitaremos ao máximo a experiência que nos propusemos a passar, e teremos muito mais para contribuir para nossas vidas do que algumas horas de distração e alienação despropositadas. Meu conselho: Lembre-se do bleed, escolha com segurança e viva a experiência. E acabe com eles. Por que es desgraçades não vão se derrotar sozinhes.

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Larp extremo. Vc ta fazendo isso certo.

LE AUTORE: Flávio “Sol Mas Lua” é gênero fluido (não-binárie), autore e organizadore de larps e RPGs de mesa, co-fundadore da Alma, organização dedicada ao estudo, criação e organização dos jogos analógicos e de representação, manja dos Parkour, de lutas com espadas de espuma, foi estudante de Filosofia, estuda Teatro e acredita num futuro melhor baseado na ludicidade, na comunidade e na liberdade de ser aquilo que se é de verdade.

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