O problema não-binário

Eu vou me posicionar diante de uma questão que costuma dividir o transativismo de forma bastante violenta, e eu honestamente não tenho ideia de como fazer isso sem acabar ofendendo alguém ou sendo respeitosa com todas as partes possíveis. Eu tenho a impressão que esse assunto inevitavelmente vai machucar alguém a não ser que todomundo aprenda a agir como adultos. Então eu não vou tentar esconder nem deixar “mais amena” minha opinião sobre isso.

Eu vejo websites como o orientando.org e eu honestamente fico me perguntando, o que há de errado com essa adolescência que precisa tanto se afirmar fora do padrão que inventa “identidades” completamente sem sentido, e potencialmente ofensivas como “kingênero”? E ao mesmo tempo eu vejo pessoas criticando pessoas assexuais ou arromânticas chamando-lhes de “floquinhos de neve” e não consigo entender direito de onde vêm tanta necessidade de negar identidades inofensivas.

Ah, o Tumblr. O lugar onde os tais “floquinhos de neve” surgem para “fingir que são especiais num mundo onde ninguém está nem aí pra você”. A comunidade LGBT mais antiga tem uma raiva enorme desse lugar, e eu diria que essa raiva é justificada.

Quando você é adolescente, você quer ser especial e pertencer a algum grupo. E você é rebelde é quer ser reconhecide como diferente da maioria. Alguns adolescentes saem do seu caminho para dizer que são gays mesmo que não sejam de verdade, apenas para sentir que pertence a alguma coisa maior, e para serem reconhecidos como fora da norma. Isso até aconteceu em um dos melhores arcos dos quadrinhos originais da Jessica Jones, Alias, onde uma adolescente de uns 15 anos espalhou rumores na sua própria escola sobre ser mutante quando na realidade ela só era lésbica.

No Tumblr, adolescentes com esse tipo de pensamento e sofrendo problemas com a sua própria identidade, acabam inventando (sim, eu disse inventando) identidades de gênero diferentes com significados puramente poéticos sem embasamento sociológico com o objetivo de se sentirem pertencentes e acolhidos.

A raiva da comunidade LGBT antiga vem do fato de que esses adolescentes NÃO SÃO LGBT, e NÃO TERÃO a sua vida alterada por causa da sua identidade de gênero ou sexualidade “fora do padrão”. Por essa visão, essas crianças não são diferente de quem romantiza atipicidades mentais e fica achando que ter depressão é bonito ou fica se chamando de bipolar.

Mas será que essas auto-identificações são realmente tão nocivas assim? Acredito que o problema principal desse debate esteja na diferença de dois aspectos: auto-identificação e socialização; psicologia e sociologia.

Eu publicando esse post

Eu publicando esse post

Eu vou admitir. Eu não sou uma psicóloga nem uma socióloga, mas eu tenho conhecimento suficiente sobre as duas áreas de conhecimento pra conseguir diferenciar as duas, e eu acredito que diferenciar essas duas coisas seja chave para o debate da não-binaridade de gênero e sexualidade.

Segundo Simone du Beauvoir e muitas outras teóricas e teóricos de gênero, gênero é Performance. E de acordo com a minha experiência, essa performance pode ocorrer em duas instâncias: na auto-identificação e na socialização. O que a maioria das pessoas não parece entender, de ambos os lados da discussão, é que a auto-identificação e a socialização não são, não precisam, e muitas vezes não tem como ser a mesma coisa. E o gênero é a relação dessas duas coisas com todas as coisas que as entornam: educação, cultura, ideologia, políticas, espiritualidade, etc.

Como eu falei no meu post sobre Pokémon Go, gênero é relativo de pessoa pra pessoa e de cultura pra cultura. Qualquer pessoa que diga ter nascido com um gênero está mentindo. Gêneros não não inerentes à natureza humana, eles são construções sociais. Mesmo a auto-identificação de gênero de uma criança muito nova não passa de uma construção social do que a criança até então percebeu como feminino ou masculino. A auto-identificação nesse caso surge apenas das preferências dessa criança dentro desse contexto no qual ela foi inserida.

Minha identidade de gênero foi formada, como apontei em outro texto, a partir de feminilidades “alternativas” que só existiam fora do ambiente da minha família e escola. A forma como eu construí gênero foi diferente da forma como meus pais construíram gênero, que com certeza foi diferente da forma como um adolescente indiano construiu gênero.

Usando eu mesma como exemplo: Tendo fontes tão discrepantes do que significa feminino e masculino, minha auto-identificação estava confusa e eu não me sentia satisfeita com a forma como eu socializava com as pessoa ao meu redor. Eu precisava me encontrar: primeiro minha identidade, e depois a forma como eu gostaria de socializar com as outras pessoas. Encontrar a minha identidade foi um processo muito mais complicado do que encontrar a minha forma de socializar. Minha socialização eu mudei trocando de roupas, nome e tomando hormônios de acordo com o que eu acreditava ser o ideal pra mim no meu contexto.

E contexto é importante pra determinar o que é binário e o que não é.

A socialização depende muito do contexto no qual a pessoa está inserida. Num contexto LGBT liberal de esquerda, eu sempre serei reconhecida como um gênero (minhas amigas sempre me chamam de “ela” sem nem pensar duas vezes e sem nem notar minha transgeneridade), mas a partir do momento que eu saio desse contexto para outros, como uma ida até a padaria, minha socialização muda (a moça da padaria me chama de “ele”, o marido dela me chama de “ela”). E eu tenho certeza que no japão as pessoas não apenas não iriam entender a minha identidade de gênero assim como eu não ia entender o que elas acham do meu gênero.

Minha socialização é não-binária porque ela varia muito de contexto pra contexto. E por acaso ela coincide com a minha auto-identificação, mas uma não é parte intrínseca da outra, justamente por socialização depender de contexto, e auto-identificação depende só de mim.

Auto-idenficação é um processo pessoal de auto-conhecimento. De entender a si mesmo e as sua próprias vontades, conceitos e preconceitos. E ninguém pode me dizer que eu estou errada em me identificar como “mulher transfeminina variante de gênero tomboy” porque isso só diz respeito à mim e aos meus contextos de preferência. Socializando com órgãos do governo, e outras pessoas em geral no resto do Brasil, entretanto, eu sou simplesmente uma mulher trans, porque esse é meu papel e é assim que eu acredito que a maioria das pessoas me veja.

Minha auto-identificação diz respeito à mim e à mim apenas. É um processo pessoal que, quando ganha nome, títulos e rótulos me ajuda num processo de auto-conhecimento – descobrir de onde vim, pra onde quero ir, porque estou aqui, etc.

Minha socialização tem a ver com a forma como as pessoas ao meu redor percebem a minha performance. E isso é útil para estudos de sociedade. Como tais grupos se comportam ou não de acordo com certos símbolos ou atitudes.

Parágrafos editados depois da publicação do post:

Um argumento que esqueci de usar nesse trabalho, é sobre a nomenclatura de termos similares o suficiente para serem a mesma coisa. Claro que cada pessoa pode usar o rótulo que quiser para se compreender no seu processo de auto-conhecimento, mas divulgar essas identidades como trabalhos estudados na forma de uma “lista concisa” pode ser prejudicial pra pessoas que ainda estão se descobrindo e ainda não descobriram como funciona as nuancias de cada termo.

O objetivo de “termos” é facilitar a comunicação e transformar conceitos complexos em uma palavra só. O que anda acontecendo com essas identidades é complicar a comunicação e garantir que quem não foi iniciado nessa cultura nunca vai entender do que a pessoa está falando.

Enfim, de volta pro post normal.

Levando isso tudo em consideração: toda auto-identificação precisa ter uma equivalência de socialização? Nem fodendo. Uma pessoa pode se identificar com vários nomes não-binários diferentes. Andrógino, tomboy, butch, transviado, agênero, neutrois, foda-se. A não ser que determinado contexto social tenha símbolos específicos pra esses gêneros,  em contextos gerais brasileiros, todos esses nomes significam uma dessas três coisas: “mulher”, “viado”, “não sei”.

Porque? De novo falando do trabalho da moça Simone, mulher é a performance que sai da regra da masculinidade. Muitas vezes, aquilo que não é masculino, seja o que for, é percebido como feminino, e por tanto, de acordo com os olhos da sociedade ocidental: inferior. Por isso mulher ou viado. O “não sei” já parte de expressões mais complexas de gênero que realmente desafiam as noções da sociedade onde essa pessoa está envolvida.

Isso me traz a outro ponto. Pessoas não-binárias são trans ou cis? Isso depende de vários fatores, mas a regra geral que eu costumo usar é a seguinte:

Essa pessoa sente a necessidade de passar por mudanças radicais no seu corpo como transições hormonais ou cirurgias plásticas / transgenitalizadoras pra que possa ser melhor aceita por si mesma de acordo com as suas próprias visões de gênero? Se sim, essa pessoa é trans, se não ela é cis, por que ela não vai passar por nenhum processo que irá mudar a visão das outras pessoas sobre ela (sua socialização). E é por isso que dá pra dizer que algumas pessoas cis tem disforia: A auto-identificação dessa pessoa não é respeitada pela sociedade, mas de acordo com ela mesma, a sua aparência faz parte da sua identidade não-binária. Então é uma disforia mais social do que corporal.

Então nessa simples separação entre auto-identificação e socialização, nós nos encontramos na solução pra maioria dos problemas que a maioria das pessoas tem com identidades não-binárias. Auto-identificação só diz respeito à pessoa e ao seu processo de auto-conhecimento, e normalmente não tem a ver com os seus papéis na sociedade a não ser em casos de disforia. E mesmo quando ela ocorre, a socialização sempre toma aspectos muito mais simples do que a auto-identificação, justamente por envolver o julgamento alheio e os contextos sociais de cada pessoa e situação.

Não há porque julgar pessoas que erram a sua auto-identificação se ela simplesmente não existe no contexto dessas pessoas, ou a forma como você se apresenta significa outra coisa completamente diferente nesse contexto. E não há porque julgar a auto-identificação alheia porque, honestamente, você não tem nada a ver com isso. Ninguém tem o direito de impor nada a ninguém.

Mas aí entra a parte foda de quando pessoas com gêneros não-binários se tornam desrespeitosas com as pessoas ao seu redor.

Quando a pessoa força pronomes que não existem na língua portuguesa encima de outra pessoa, ou determinadas formas de falar que não fazem sentido dentro daquela região, usando argumentos como “você tem que respeitar o meu gênero. Não me chamar de zir é transfobia” é uma forma gravíssima de violência contra as pessoas ao seu redor. Eu não consigo descrever esse tipo de atitude como sendo qualquer coisa além de chantagem. É desonesto e um total desserviço pro movimento transgênero. Se quiser usar seus pronomes estranhos dentro dos seus clubinhos não binários, fique a vontade, mas esse tipo de coisa não pode ser imposta fora desses contextos sociais porque língua não se muda com imposição e cagação de regras. Língua se muda com uso, e através dos SÉCULOS, não de ontem pra hoje.

E a parada que me fez escrever esse post foi uma classificação de gênero que eu vi no tal do orientando.org que me fez querer escalar paredes, querer socar alguém, e dar umas aulas forçadas sobre apropriação cultural pra quem escreveu a lista na forma de lavagem cerebral.

Kingênero.

Kingênero, segundo esse site, é quando o gênero é determinado pelo seu kin, que é o conceito principal de uma pseudo-espiritualidade de internet chamada de Otherkin.

Otherkin é uma piada do xamanismo tradicional, feita por crianças brancas que honestamente não sabem nada sobre espíritos animais e acham que usar orelhas de gatinho que eles compraram no e-bay transformam eles em gatinhos de verdade.

Sendo eu mesma parte de uma fé que normalmente é negligenciada como um constructo dos anos 50, a Wicca pelo menos é embasada em conhecimentos espirituais reais passados através de gerações por várias tradições diferentes, não em achismos e manuseios irresponsáveis e perigosos de energias espirituais. E o fato de que as identidades de gênero chegaram a um ponto de variação interna dentro de comunidades como o tumblr onde galera acha que uma prática racista, ofensiva, especista e culturalmente insensível como otherkin se valida como gênero me assusta pra caralho.

Muitas identidades de gênero criadas dentro dessas comunidades, como crystaline ou fire-gender tem um significado puramente poético e serve apenas como uma ferramenta de auto-conhecimento, e eu nunca vi problemas nestes por que eu nunca os vi como gêneros de verdade (construções sociais criadas a partir de performance dentro de uma sociedade, ou seja, vinculados com a socialização da pessoa). Mas kingênero foi ir longe demais. Honestamente galera, vamos tomar cuidado pra não pirar demais porque senão a sua auto-identificação deixa de ser SÓ problema seu.

Considerando que meu animal espiritual é uma raposa, se algum otherkin vier me falar que é uma raposa, eu vou me sentir profundamente ofendida, e sentir que você está desrespeitando, não só a minha fé, mas também a cultura de um povo muito antigo que foi muito desrespeitado durante séculos de colonização e violência, e honestamente, esse povo não precisa da sua comodização da fé deles.

O que nós precisamos fazer no final das contas para resolver todos esses problemas, é sempre compreender e respeitar o próximo, o máximo possível.

Mesmo assim eu sinto que alguma parte dessa minha teoria sobre auto-identificação e socialização está errada, mas eu não sei direito o que. Alguns pontos de vista como “a galera confunde estilo de roupa com gênero” quando falando de identidades como “fofogênero” não foram abordados porque eu honestamente não sei como responder eles. Então me falem o que vocês acham sobre o assunto nos comentários DE MANEIRA RESPEITOSA.

E espero que esse post tenha pelo menos apresentado outras maneiras de entender gênero que talvez você não conhecia.

Se quiserem ver mais posts desse tipo, não esqueçam de dar uma forcinha no Patreon, e a não ser que você esteja sendo uma pessoa particularmente desrespeitosa, eu te amo.

patreon

Adendo: Eu não estou falando que você deve deixar as pessoas errarem seus pronomes, só estou dizendo pra você tentar se esforçar para entender que esses pronomes talvez não sejam os ideais para a forma como você está se inserindo em determinado contexto. Isso não é uma forma de dizer que transfobia não existe, porque ela existe sim, mas é outro assunto completamente diferente que envolve violência. E aqui eu estou falando de interações inocentes e inofensivas entre pessoas que não querem o mal uma da outra.

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