Resenha: Anime Saga – A Primeira Jornada

“Anime Saga é um jogo de entrada no hobby, leve mas com opções estratégicas interessantes”. HAUHEUAHEUHAUEHAUHEUAHUHAUHEUAHREUHAUEHUAHEUHA. Alguém embebedou a Ludopédia. Deve ter sido esse tal de Michael Alves.

Sabe, é por causa desse tipo de lixo que eu me sinto extremamente relutante em dizer que o mercado de boardgames no Brasil tem como ir pra algum lugar que não seja pra baixo.

Minha impressão é de que nosso país é cheio de designers preguiçosos que não gostam de fazer pesquisa nem testes e ficam cheirando as bundas uns dos outros, mas carregam facas nas costas pra poder esfaquear o designer da frente quando a chance aparecer. (E esse parágrafo provavelmente vai destruir todas as chances que eu tinha de ter meus jogos publicados dentro do país.)

E Anime Saga é um jogo desses. Saído direto da Escola Marcelo Cassaro de Mediocridade*, ele apresenta todos os clichês e falhas de design que se esperaria de gente que passou a vida toda com viseira nos olhos enquanto só lia o que a Dragão Brasil publicava*.

Sabe, os jogos do Cassaro podem ser uma merda, mas pelo menos eles tem personalidade. E o cara sabe escrever muito bem. Mas Anime Saga não tem nem isso! É o jogo mais sem graça que eu joguei desde que comecei a trabalhar com boardgames semi-profissionalmente. E eu joguei Agricola solitário.

Esse jogo quer ser o 3D&T do seu gênero. E essa já é uma barra beeeeeem baixa de se alcançar. Mas acho que a equipe de produção desse jogo esqueceu que o sucesso de 3D&T não se deu por conta da temática de anime ou pelas suas mecânicas contraditórias. 3D&T fez sucesso porque é fácil de entender, e principalmente, porque é barato.

A edição revisada de 3D&T custa míseros 30 reais. Qualquer um pega um 3D&T numa livraria e provavelmente vai se divertir com o jogo. E mesmo que não goste, foda-se, foram só 30 reais.

Anime Saga está pedindo 150 reais pra te oferecer uma versão muito inferior de um jogo normalmente já considerado como clássico dentro do nosso país. Isso me revolta. E eu não vou segurar meus palavrões nessa resenha por que, puta que pariu, são cento e cinquenta reais! Isso é metade da minha renda mensal.

Tudo bem que é um preço modesto comparado com outros boardgames, mas porra! Pra que caralho eu vou jogar isso quando eu consigo 3D&T por míseros 30 reais? Um jogo que tem as mesmas ideias básicas, vários dos mesmos problemas, mas mesmo assim consegue ser infinitamente mais divertido do que esse… Derrame.

Tá, vamos entrar em partes específicas. O que esse jogo tem de tão parecido com 3D&T? Além do tema de anime.

Anime Saga é um RPG… às vezes. Quando ele quer ser. Mais ou menos.

Na realidade ele é um RPG, misturado com deck builder, misturado com corrida. Esse jogo não tem a menor ideia do que ele quer ser. E a parte de RPG parece só existir pra deixar o jogo mais parecido com 3D&T. Se você considera que 3D&T tem 1 ou 2 atributos inúteis enquanto apenas um deles realmente conta (que é o meu caso), você pode ter certeza que Anime Saga pegou essa ideia e multiplicou ela por dez. Só que agora o número de elementos de personagem dentro do jogo DOBROU e TODOS ELES SÃO INÚTEIS (to vendo o “de entrada” e o “leve”, ludopédia. Aham). Menos se curar, o que torna o jogo todo uma das mortes mais lentas e dolorosas que eu já tive que passar. Mais sobre isso depois.

A próxima semelhança ainda consiste no fato dele ser um RPG. E eu vou dar pontos pro Anime saga onde ele merece: As cartas de ação realmente são boas pra incentivar o roleplay, e não existe nenhum incentivo do gênero no 3D&T. Mas a falta de incentivo do 3D&T aparece na forma das cartas dos episódios, que ao contrário do 3D&T onde alguns jogadores simplesmente vão achar que a simplicidade das regras não da muita base pra interpretação, vão lentamente destruir toda a vontade que você teve em algum momento de jogar essa porcaria.

E a próxima similaridade é o fato de que falta tema. Em 3D&T isso é perdoável porque se trata de um sistema de RPG genérico pra você poder narrar qualquer tipo de anime que quiser sem ter que se preocupar muito com adaptações (em teoria). Mas em Anime Saga não da pra perdoar porque… VOCÊS HONESTAMENTE ESPERAM QUE EU ACREDITE QUE UM NINJA E UM ESTUDANTE DO COLEGIAL ESTEJAM LUTANDO CONTRA UM ORC SAMURAI? Vai tomar no meu cu. Mais sobre a inconsistência depois.

E na realidade é aqui que acabam minhas oportunidades de criar similaridades cômicas. Porque 3D&T não passa de um jogo divertido que você pode montar fichas em 5 minutos e dar risadas com amigos. Em Anime Saga você vai dar risada de nervoso.

O problema mais óbvio desse jogo é a sua falta de personalidade. Nada aqui faz sentido. E por mais que todas as escolhas temáticas do jogo abrissem ótimas oportunidades pra comédia, ele não faz nada pra se aproveitar do próprio absurdismo.

O jogo se leva a sério demais. Ele não tem uma piada – seja visual ou escrita. Tudo é extremamente sério e o manual do jogo trata ele como se nós devessemos realmente levar a sério o exemplo que dei acima do colegial e do ninja lutando contra o orc samurai.

As cartas de episódio nem se quer tentam criar contexto, e nada no jogo inteiro se oferece pra criar histórias engraçadas ou se quer que façam sentido.

A falta de consistência mecânica também é extremamente absurda. Em um turno você pode sentir que está jogando um RPG, mas no próximo é um Deck Builder? E de alguma forma o objetivo do jogo é individual por mais que ele seja todo jogado de forma cooperativa.

Tematicamente esse jogo não faz sentido. Mecanicamente esse jogo não faz sentido. E honestamente, eu vejo potencial aqui. Esse jogo podia ter sido uma obra prima de absurdismo. Mas da maneira que ele é apresentado, não passa de uma obra pretensiosa feita para abocanhar fãs de anime desavisados.

Falando em pretensioso. A não ser que você goste muito de Eurogames, você provavelmente já jogou algum board que você sentiu que estava levando tempo demais pra terminar e, ou você estava morrendo de sono, ou com algum sentimento parecido com “PUTA QUE PARIU, TERMINA LOGO, CARALHO.” E eu acredito que mesmo que você seja um veterano dos Euros, você vai experimentar um dos dois sentimentos jogando Anime Saga.

Esse jogo é TÃO lento da PIOR forma possível. Cada patada de um adversário provavelmente vai comer 70% da sua vida, ou mais. E você vai passar turnos e turnos, se curando das maneiras mais lentas possíveis pra se quer tentar realizar o segundo ataque.

Se você não entendeu como o jogo funciona (o que as pessoas com quem eu joguei demoraram pra pegar), você vai ficar TURNOS não fazendo nada de útil. Se você entendeu como funciona, logo vai se ver pega nas armadilhas de “se curar” do jogo.

E se você não apenas entendeu o jogo, mas descobriu quais são as melhores mecânicas pra explorar o lado de corrida (sim, é um jogo de corrida) do jogo você vai notar que perder tempo não fazendo nada de útil pra progredir a “história” é a melhor forma de pontuar e vencer o jogo.

Mas a PIOR parte desse jogo. O seu PIOR pecado e o seu MAIOR contribuinte pra ele ser tão miseravelmente lento é: Não existe estado de fracasso.

Você não tem como perder o jogo. Ou você joga até o fim ou você joga até o fim. E não tem como nem dizer que o grupo é obrigado a vencer porque você pode passar o jogo todo tomando banho em fontes termais enquanto só seus amigos lutaram contra o chefe final. E no final das contas, quem ganha o jogo é você porque você descobriu como explorar a mecânica de corrida.

De novo, poderia ser uma grande obra de absurdismo, mas na realidade você consegue ver o quão acidental foram essas coisas.

Esse jogo é tão patético. Tão preguiçoso. Tão injustamente caro que eu honestamente não consigo – NÃO CONSIGO – perdoar a sua existência.

É um produto de pura incompetência e pura falta de vontade de testar a merda do seu jogo.

Ele representa tudo que no desenvolvimento de videogames nós aprendemos a NÃO fazer (mecânicas demais por exemplo), mas por algum motivo gente no nosso país se sente justificado a achar que vive numa bolha isolada de todos os outros conhecimentos de ludologia e game design simplesmente por estar fazendo um jogo que se joga com papelão e peças de plástico.

Os erros que esse jogo comete são infantis e amadores, e mesmo comigo fazendo uma piada com o Marcelo Cassaro no começo do post – eu posso não gostar dos jogos dele, mas ele pelo menos sabe o que está fazendo.

Essa obra da Arcano Games parece um projeto de escola  de crianças que nunca se quer ouviram falar em Extra Credits e simplesmente quiseram copiar tudo que viram em jogos que gostaram de uma vez só. Sem aplicar qualquer noção de Game Design gratuitamente disponível ao redor da internet.

Me revolta muito profundamente o fato de que eles conseguiram arrecadar mais de 30000 reais no Cartase com esse lixo. Me lembra o caso de Mighty no. 9, com a diferença que esse jogo está recebendo boas reviews na Ludopédia (todas elas elas sem consistência nenhuma, mas ainda sim, notas altíssimas).

Bom. A equipe de produção de Anime Saga pode não saber o que estava fazendo, mas a de marketing sabia muito bem.

O meio brasileiro da arte de Boardgames merece muito mais do que isso. Um nível tão grande de incompetência ter alcançado tanto sucesso pra mim é inadmissível quando existem tantas outras designers talentosas e talentosos pelo nosso país com medo de pedir pra publicarem seus jogos por não serem bons o suficiente.

Pra mim isso é um atestado de como reconhecimento e sucesso dentro do capitalismo não se trata de talento ou dedicação, e sim de marketing.

E isso. Me dá. Nojo.

Meu veredito final para Anime Saga é:

An Anime Fan On Prom Night / 10

Esperamos que essa seja sua Primeira e Última Jornada.

E se vocês querem apoiar uma designer que leva o seu trabalho a sério, eu tenho páginas de apoio no Patreon, no Apoia.se e uma caixinha de esmolas no Paypal.

Pelo menos comigo vocês podem ter certeza que o dinheiro de vocês vai pra trabalhos realmente bem pesquisados.

* Esclarecimentos: Eu não acho que o Marcelo Cassaro é um designer medíocre, e o sucesso dele é realmente merecido por mais que eu não goste de nenhum dos jogos dele. As coisas que escrevi em relação a ele e o trabalho dele foram majoritariamente piadas com o simples fato de que eu não curto o estilo do cara e quem criou Anime Saga parece que curte demais.

Esclarecimento 2: Hayao Miyazaki nunca falou que animes foram um erro e que eles não são nada além de lixo. Isso é um troll quote baseado numa crítica dele ao fato de que a maioria dos animadores do Japão não gosta de interagir com pessoas e não tem como fazer animação boa se a sua base não for a vida real.

Mais uma coisa: Eu ia zoar o nome do jogo por parecer joguinho tosco de celular, mas realmente existe um jogo de celular com esse nome. Kek.

Anúncios

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s