Star Wars Nas Mãos de Carrascos

Lucasarts. Grande lucasarts. Essa foi um grande estúdio e uma grande publicadora, não foi?

Como estúdio, a empresa desenvolveu os seus próprios clássicos. Grim Fandango, Monkey Island, Day of The Tentacle. E como publicadora, assegurou que um dos maiores legados do mundo do cinema também tivesse sua presença reconhecida no mundo dos videogames.

Foram mais de 30 jogos recebendo o título de Star Wars no seu tempo e (quase) todos eles, clássicos (tá, talvez eu esteja sendo generosa demais). O legado Star Wars no mundo dos videogames é, eu diria, ainda maior do que no cinema. Seus títulos criaram gêneros, definiram padrões, geraram grandes nomes na indústria.

Mas tudo isso morreu em 2013, depois que a empresa mãe da Lucasarts, Lucasfilm, foi comprada pela Disney. E fechou as portas da uma vez grande criadora de jogos sem qualquer cerimônia.

A Disney não dá uma foda pra videogames. Quando não se trata de joguinhos simples de celular que sejam fáceis de se monetizar, a casa do rato simplesmente não tem interesse nessa forma de mídia, e tenta deixar ela o máximo possível nas mãos de outras pessoas.

Desde 2016, com o cancelamento de Disney Infinity e do suporte oficial para o jogo, o modus operandi da empresa em relação a videogames tem sido claro. O objetivo é fazer o máximo de dinheiro possível com o mínimo de envolvimento possível.

“Este é um mercado em constante mudança. E nós não temos confiança suficiente nesse mercado em termos de estabilidade para nos mantermos numa perspectiva auto-publicadora.” disse Robert Igers, CEO da Disney. “Nós simplesmente sentimos que esse é um espaço de mudanças e nós estaremos mais seguros cuidando dos riscos que esse negócio proporciona licenciando em vez de publicando. É bem simples.”

Isto entretanto, já era claro para observadoras mais astutas desde 2013 quando todos os direito sobre os videogames de Star Wars foram vendidos para a Electronic Arts. Provavelmente em função do já bem sucedido MMO Star Wars: The Old Republic. Mas esse não foi o único motivo pelo qual a EA conseguiu esse acordo milionário.

Tem um artigo interessante do Kotaku, de 2013, que se chama “EA comprar Star Wars pode não ser completamente ruim“. E Luke Plunkett, o autor do texto, faz um ponto interessante.

“Como os donos de Star Wars, a Disney nunca ia oferecer a licença individualmente para várias publicadoras analisando jogo-por-jogo. A única possibilidade é que ela assinaria um contrato em massa como esse, trancando alguém a longo prazo. E considerando a popularidade de Star Wars apenas duas publicadoras conseguiriam pagar por isso. Talvez até só duas. A outra sendo a Activision. Você ia preferir isso?”

Como já comprovadi anteriormente, a Disney não quer nenhuma responsabilidade artística com os seus jogos, e só está comprometida com a monetização do mercado móvel. Mas como videogames de suas franquias não podem simplesmente deixar de existir, como no caso de Star Wars, a alternativa é terceirizar.

Mas a EA também não liga muito pra videogames, liga?

Como a gente já discutiu numa postagem anterior, essa é uma publicadora de videogames que não está nem aí pra qualidade dos seus produtos e sim pro quanto eles conseguem render no final do mês.

O acordo da EA com a Disney pode não ter parecido uma coisa tão ruim assim, mas 3 anos depois se provou como sendo a contratação de um carrasco para matar de uma vez o legado Star Wars no mundo dos jogos.

E Star Wars teve um LEGADO em videogames. Republic Comando e Battlefront clássico são exemplos que até hoje servem de como se fazer shooters criativos. A série X-Wing foi um dos maiores precedentes para a criação de simuladores de voo fantásticos. Knights of The Old Republic 1 e 2 ainda são mantidos como dois dos melhores CRPGs já criados. E Jedi Knight: Jedi Academy continua a inspirar jogos de ação até hoje.

E todos esses jogos eram focados em uma coisa principal, como tudo em Star Wars. Histórias e personagens. Nem sempre a história era boa, mas de alguma forma esses jogos nos vendiam na ideia de que o universo de Star Wars é feito de Personagens grandiosas, e nós somos uma dessas personagens.

Mas a EA não está mais interessada em histórias e personagens. Só em monetização.

Em novembro de 2017, enquanto falava em uma coletiva sobre o próximo jogo de Star Wars que o falecido estúdio Visceral Games lançaria sob a bandeira da EA antes de ser fechado, o CFO da empresa, Blake Jorgensen disse que “Enquanto continuávamos a rever o jogo, ele continuava a aparecer com um jogo linear que as pessoas não gostam mais tanto hoje em dia quanto gostavam 5 ou 10 anos atrás.”

As pessoas não gostam mais de “jogos lineares” né? Desde então, figuras na The Game Awards e na Playstation Experience tem aproveitado pra tirar sarro de um comentário tão absurdo vindo de uma pessoa tão importante pra indústria.

A Bethesda Softworks até lançou uma propaganda tirando sarro dessa declaração do sr. Jorgensen dizendo que eles estão salvando os jogadores solitários.

E aí vem o escândalo do Star Wars Battlefront 2 e suas “loot boxes”. A tentativa miserável da EA de colocar o seu esquema de pay-to-win implementado com sucesso nos seus jogos de esporte para uma das franquias mais bem conhecidas do planeta. E a Disney pode não ligar pra videogames, mas outra coisa que ela realmente NÃO tolera é atenção negativa.

Pra quem não sabe, loot boxes são sistemas caça-níquel colocados em videogames que oferecem vantagens variadas como possíveis recompensas, escolhidas aletoriamente, por gastar dinheiro nesse sistema. E a confusão envolvendo Star Wars foi tão grande que está recebendo ameaça de legislação da Bélgica, Austrália, e alguns estados dos EUA. Por que esse tipo de coisa deveria ser ilegal.

A Disney pode não ligar pra videogames, mas eu duvido que ela queria que os governos de vários países de alguma forma censurem um pedaço de uma de suas franquias mais famosas. Talvez eles tirem o contrato das mãos da EA antes do combinado, mas a opção mais realista é que jogos de Star Wars simplesmente parem de ser feitos até esse contrato acabar.

 

Os filmes de Star Wars estão melhores do que nunca. Os livros estão divertidos. Os quadrinhos estão demais. Mas os videogames estão sendo tratados como um cachorro morto, que continua sendo dissecado pelos seus próprios donos.

Mas eu não quero dizer adeus pros jogos de Star Wars. Ainda há esperança na galáxia. Eu só não sei onde.

Vamos celebrar o tempo que Star Wars ainda estava vivo no mundo dos jogos? Recentemente, os servidores de Battlefront II Clássico (de 2005) foram reativados pela Good Old Games, e funcionam agora inclusive na Steam. Vamos formar um grupo pra jogar o Battlefront de verdade! Deixa seu nick da Steam e eu vou add você pra gente combinar os jogos oficiais do FGD.

Obrigada por ler o texto, e não vamos perder a esperança.

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A Força já está com a nossa Bruxa da Floresta do Norte. Beto Thiago Alves. Obrigada.

E que a Força esteja com vocês também.

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