O Dia Internacional da Mulher Não É O Meu Dia

Bom. Você pode estar se perguntando agora por que eu não postei nada ontem.

Todos os outros blogs e sites fizeram alguma coisa. E é uma data importante pra caralho. Até o Governo do Estado do Paraná e a Prefeitura de Curitiba fizeram uma grande homenagem ao dia dessas pessoas maravilhosas que consistem de mais da metade da população mundial (mais ou menos).

Então o que há? “Você não é mulher, Felicia?”

Arte por Kaol Porfírio

Essa pergunta é um pouco mais complicada do que você provavelmente está imaginando.

Não é só porque eu esqueci, que nem aconteceu no dia da visibilidade trans (e acreditem em mim, o meu Facebook jamais me deixaria esquecer uma coisa dessas). Mas sim por dois motivos muito mais desconfortáveis de se discutir.

Então vamos discutí-los.

O primeiro deles é que… Eu vou falar o quê?

Tudo que poderia ser dito sobre o dia das mulheres já foi dito por um milhão de bocas diferentes. Você sabia que mulheres tiveram que lutar pelo direito do voto e do divórcio? Você sabia que mulheres foram queimadas num incêndio em nova iorque e por isso esse dia foi criado? Você sabia que o movimento feminista foi um dos estopins para o início da Revolução Russa?

Quem caralhos não sabe dessas coisas?!

Além do que, se você lê o meu blog, você provavelmente vive uma câmara de eco feminista-interseccional onde todas as possíveis ideias e factoides sobre feminismo foram repetidos de novo e de novo ad nauseum. E se você lê o meu blog, além de você fazer parte dessa câmara de eco, você provavelmente também já conhece todos os factoides feministas exclusivos da área de jogos. Você sabia que foi uma mulher que fundou a primeira empresa de jogos focada em experiências narrativas? CACETE, QUEM NÃO CONHECE A ROBERTA WILLIAMS?!

Eu vou falar o que então? Falar das personagens mulheres que eu acho da hora? Eu já fiz isso.

Não tem nada que eu possa dizer que já não foi dito. Não há nada de novo que eu possa acrescentar à discussão. Então pra que gastar meu tempo falando de coisas que outras mulheres já estão falando a muito tempo atrás de maneira muito melhor do que eu jamais poderia?

E realmente não há nada que eu possa acrescentar porque… Esse dia… Não foi feito pra mim. E isso ficou muito claro pra mim hoje depois que eu li um texto maravilhoso do site AzMina.

Esse texto conta a história do dia 8 de Março, e lendo ele, algo se realizou na minha mente.

O Dia 8 de Março não é sobre feminilidade. Não é sobre performances de gênero. E nada tem a ver com o direito metafísico de “ser” com o qual a maioria das mulheres trans parece obcecada (inclusive eu). É sobre as conquistas civis da Mulher Proletária.

Eu não tinha parado pra pensar nisso até agora, mas é por isso que elogios superficiais vindo das bocas dos homens é tão ofensivo. É por isso que oferecer doces e rosas para mulheres nesse dia é praticamente a mesma coisa que xingá-la. É por isso que o Greca colocando cílios nos semáforos de Curitiba é provavelmente a coisa mais patética que aconteceu esse ano. O dia 8 não é sobre “ser mulher” ou qualquer definição binarista de mulheridade que os homens cis parecem ter. O dia 8 de Março é sobre TRABALHO, luta e guerra contra o capitalismo que denigre e explora mulheres cis e homens trans desde o século XVIII pela simples virtude de seus úteros.

Bom, agora vou ter que me justificar. Por que pessoas com útero? Bom, me dê a permissão de emprestar um dos termos do feminismo radical.

Pessoas com útero normalmente eram (e continuam sendo em sua grande maioria) socializadas como mulheres. Aquilo que o mundo patriarcal considera como inferior, indigno e perigoso. E essa socialização causou (e continua causando) um mundo de problemas para cada uma dessas pessoas. Por serem consideradas seres biologicamente inferiores, elas não podiam votar. Por “poderem engravidar” elas recebem salários menores. Por serem vistas como fracas, nada do que elas falam é levado a sério.

O mundo não lhe daria oportunidade por ser vista como uma mulher. Então essas pessoas socializadas como mulheres lutaram, pra mostrar para o mundo que não é um útero que as torna menos capazes de fazer acontecer no mundo.

Mulheres trans? Em sua grande maioria elas sofrem um tipo de opressão bastante diferente daquela que era sofrida pelas mulheres cis proletárias e sufragistas dos séculos XVIII e XIX. Para o patriarcado elas são objetos sexuais que não merecem se quer serem vistas em meio à sociedade, quem dirá reclamar o direito de “votar” ou de trabalhar com qualquer coisa que não seja prostituição.

Essas proletárias e sufragistas lutavam pelo direito de respeito e igualdade, bem como todas as ondas do movimento feminista tem feito desde então. Mulheres trans por outro lado? Lutam pelo direito de simplesmente… existir.

Isso não é pra dizer que não existe interseccionalidade, porque ela certamente existe! Sem o movimento feminista, não existiria o movimento LGBT. E sem as mulheres cis e outras pessoas com útero conquistando os seus próprios direitos, pessoas trans jamais teriam qualquer chance de lutar pelos seus próprios. Mas até certo ponto essas lutas são diferentes.

Mas só até certo ponto.

Hoje em dia, graças às Deusas, mulheres trans não estão mais exclusivamente relegadas ao mundo da prostituição. O direito delas trabalharem em empregos tão dignos quanto os de qualquer mulher cis tem aumentado, e a partir desse momento, mulheres trans tem ganhado o status de proletária (talvez proletária não seja a palavra certa pra classe trabalhadora do século XI, mas é a palavra que eu to usando desde o começo do texto, então vamos tentar deixar esse assunto pra alguma outra oportunidade).

E socialização pode mudar. Mulheres trans passam boa parte das suas vidas sendo socializadas como homens, mas a partir do momento que ela começa a fazer a transição e as pessoas ao seu redor começam a vê-la como uma mulher, ela passa a ser socializada como uma mulher.

E se uma mulher trans trabalha como qualquer mulher, e é socializada como qualquer mulher, ela sofrerá as mesmas opressões que qualquer mulher. E é aí que o dia 8 de Março passa a ser o dia dela também.

E… eu não sou essa mulher.

Eu me identifico como sendo do gênero feminino, sim. Mas eu ainda não estou 100% socializada como uma “mulher” pro mundo a fora. Meus documentos ainda dizem “Felipe” – meu nome de batismo. E pra todos os efeitos legais eu ainda sou um “homem”.

Mas essa nem é a questão principal. A questão principal é que… Eu não sou parte da classe trabalhadora. Eu não sou nada que chegue perto de “proletária”. E como eu não trabalho e nem preciso trabalhar eu simplesmente não sofro as opressões que deram origem ao dia 8 de Março.

Eu sou uma adolescente que decidiu não fazer parte do mercado de trabalho porque tem uma mãe muito querida que pode e quer continuar a sustentá-la. E como eu não trabalho, eu posso me permitir viver dentro de uma bolha onde minha capacidade jamais será questionada por conta da minha feminilidade.

Eu sou banhada em privilégios e não tenho que lidar com quase nenhuma das outras merdas que outras mulheres lidam, então… Não. Esse dia não foi feito pra mim.

Isso não quer dizer que será assim pra sempre. Algum dia eu vou inevitavelmente crescer, ter um emprego, e uma família. E toda o peso da realidade que as mulheres são obrigadas a passar até hoje vai cair nas minhas costas como uma bigorna. E quando isso acontecer é que eu vou entender o que o dia 8 de Março significa e eu vou poder das insights de verdade sobre ele.

Até lá eu… Honestamente nem sei se sou uma mulher mesmo.

Obrigada por ler e obrigada em especial pra quem me dá uma força no Patreon! Principalmente nossa Bruxa da Floresta do Norte, Beto Thiago Alves.

Quer me ajudar a escrever mais textos sobre o porque eu não posso escrever textos? Que tal dar uma força no Patreon também pra eu fazer isso com mais frequência?

Amo vocês! ;*

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