Não Existe Liberdade no Capitalismo Tardio – diar.pt1

Cigarros tem gosto de liberdade. Poucas coisas se igualam ao sabor do tabaco queimando. Se você tá fumando você tá pouco se fodendo pras consequências, principalmente no Brasil onde você tem que fazer um esforço ativo para ignorar os avisos violentos atrás da carteira. Mesmo assim é uma prisão da qual 34% da população brasileira não consegue sair. Eu posso pensar que cigarro tem gosto de liberdade, mas o que é liberdade memso?

Desde o primeiro turno das eleições de 2018 eu tenho estado extremamente paranoica com produção e exposição algorítmica em redes sociais. Tentando fazer o melhor possível do ativismo de internet eu me senti recebendo um milhão de socos na barriga, um seguido do outro, pela forma como eu percebi que a internet foi roubada das usuárias há muito tempo pelas grandes corporações.

Eu sempre usei o Facebook como uma ferramenta de expressão pessoal. Todos os meus sentimentos, conquistas, derrotas e vitórias eram meticulosamente registrados em forma de texto (porque eu não gosto de fotografias) no Facebook, no meu blog; e no orkut e nos fóruns quando esses existiam. Em um mundo material onde eu me sentia presa ao meu próprio corpo a internet era o gosto de liberdade. Onde eu podia ser o que eu quisesse ser e falar o que eu quisesse. E é daí que vem a comparação com cigarros. Só tem gosto de liberdade, mas na verdade se tornou uma prisão.

O capitalismo tem uma tendência de destruir as coisas que a gente gosta e transformar elas em produtos. Nada mais justo, então, do que ele seguir o seu curso natural e transformar as pessoas em produtos. A Souza Cruz vende cigarros. O Mark Zuckerberg vende gente.

Continuar lendo
Anúncios

Para nos tornarmos melhores do que nós mesmas

Ontem a noite, muitas de nós pensamos em desistir. Foi coisa demais pra uma noite só. Nossas famílias parentes e amigos – mais de 49 milhões de pessoas – nos traíram.
A gente se sente derrotada. O Bolsonaro nem venceu ainda e as redes sociais estão borbulhando com crimes de ódio contra nós.

As mais vulneráveis entre nós pensam em fugir pro Uruguai, Argentina ou Europa. E eu empatizo com elas, e desejo sorte no que decidirem fazer, mas A Onda do fascismo não parou nas fronteiras da Alemanha, não parou nas fronteiras dos Estados Unidos, e certamente não vai parar nas fronteiras do Brasil.

Não vou dizer pra ninguém fazer algo que se sinta desconfortável fazendo, mas estamos todas no mesmo barco, e a luta contra o fascismo é maior do que qualquer uma de nós. Mais do que nunca é hora da gente se unir, e militar como nunca militamos antes.

Existem duas coisas que nós devemos fazer agora que o segundo turno mais importante da história do país está há semanas de distância: Continuar lendo

Mas Naquela Época! Introdução & História do Preconceito Sexual

Fantasia Medieval. Meu gênero de ficção favorito pra ser honesta. Ele nos da dragões, magia, e uma base semelhante o suficiente a história do nosso próprio mundo pra explorar problemas mais pé no chão que talvez não sejam possíveis nos gêneros de ultra-high-fantasy ou sci-fi.

Okay, talvez isso seja só uma desculpa pra um certo fetichismo nórdico criado por Tolkien. Mas é um gênero MUITO popular! Principalmente no mundo do RPG. E justamente por ser tão popular ninguém pensa muito sobre. “Ah, é só mais um D&D” pensam os céticos quando olham pra uma caixa de Dragon Age. Mas o conteúdo dessas caixas escondem muito mais do que cavaleiros e dragões.

John R. R. Tolkien, Robert E. Howard, Dave Arneson e Gary Gygax criaram todas as regras silenciosas da Fantasia Medieval que ninguém questiona ou põe a prova. E os seus trabalhos eram abertos o suficiente (principalmente do Gygax) pra que qualquer suposição que o seu publico alvo tenha sobre a realidade acaba entrando ainda mais silenciosamente dentro desse léxico fantástico.

E eu quero desafiar esse léxico. Muita gente gosta de usar esse gênero de fantasia pra justificar comportamentos preconceituosos, usando principalmente do argumento “MAS NAQUELA ÉPOCA”. E é disso que se tratará essa série de textos. Eu quero desafiar a noção do público da Fantasia Medieval. De o que “aquela época” significa. E com isso talvez você saia daqui aprendendo alguma coisa nova. Continuar lendo

Representando a expressão não binária

Deusa abençoe a desenvolvedora que apareceu pra falar comigo ante-ontem pedindo conselhos sobre inclusão não-binária pro jogo dela.

Sério, amiga. Sem você eu não teria o que postar esse mês no  blog (mentira, teria sim, mas eu to enrolando o máximo possível pra falar sobre o assunto que eu tenho guardado aqui comigo).

Então vamos falar sobre expressão de gênero e o que fazer pra incluir pessoas não-binárias na sua obra. Continuar lendo

Star Wars Nas Mãos de Carrascos

Lucasarts. Grande lucasarts. Essa foi um grande estúdio e uma grande publicadora, não foi?

Como estúdio, a empresa desenvolveu os seus próprios clássicos. Grim Fandango, Monkey Island, Day of The Tentacle. E como publicadora, assegurou que um dos maiores legados do mundo do cinema também tivesse sua presença reconhecida no mundo dos videogames.

Foram mais de 30 jogos recebendo o título de Star Wars no seu tempo e (quase) todos eles, clássicos (tá, talvez eu esteja sendo generosa demais). O legado Star Wars no mundo dos videogames é, eu diria, ainda maior do que no cinema. Seus títulos criaram gêneros, definiram padrões, geraram grandes nomes na indústria.

Mas tudo isso morreu em 2013, depois que a empresa mãe da Lucasarts, Lucasfilm, foi comprada pela Disney. E fechou as portas da uma vez grande criadora de jogos sem qualquer cerimônia. Continuar lendo

Resenha: Attack on Titan – Deck Building Game

Attack on Titan – The Deck Building Game é um jogo cooperativo (com modo de jogo solitário) de construção de baralhos desenvolvido pela Cryptozoic e publicado em novembro de 2016, baseado na série de animação japonesa de mesmo nome que FAZ MEU CORAÇÃO PARAR TODA SEMANA.

Infelizmente o jogo não faz o meu coração parar do mesmo jeito que o desenho, mas ainda é divertido. Continuar lendo

O problema não-binário

Eu vou me posicionar diante de uma questão que costuma dividir o transativismo de forma bastante violenta, e eu honestamente não tenho ideia de como fazer isso sem acabar ofendendo alguém ou sendo respeitosa com todas as partes possíveis. Eu tenho a impressão que esse assunto inevitavelmente vai machucar alguém a não ser que todomundo aprenda a agir como adultos. Então eu não vou tentar esconder nem deixar “mais amena” minha opinião sobre isso.

Eu vejo websites como o orientando.org e eu honestamente fico me perguntando, o que há de errado com essa adolescência que precisa tanto se afirmar fora do padrão que inventa “identidades” completamente sem sentido, e potencialmente ofensivas como “kingênero”? E ao mesmo tempo eu vejo pessoas criticando pessoas assexuais ou arromânticas chamando-lhes de “floquinhos de neve” e não consigo entender direito de onde vêm tanta necessidade de negar identidades inofensivas. Continuar lendo

Ubisoft: The Movie

Alguém aqui assistiu Assassin’s Creed? Em teoria eu assisti, mas não tenho certeza se isso funciona na prática. Esse filme não faz sentido nenhum. Assim como as práticas do mercado de videogames AAA. Esse filme parece até uma alegoria pra elas.

Eu vou ser a primeira pessoa admitir: Eu gosto de Assassin’s Creed. Assassin’s Creed é uma bosta hoje em dia, e a Ubisoft representa tudo que há de ruim na indústria AAA ocidental, mas eu gosto. Eu me divirto. Tenho uma tradição de sempre jogar o último assadinho junto com um amigo próximo meu e a gente adora cada nova entrada ruim na série.

Mas eu não posso perdoar o filme. E muito a Ubisoft.

E não se preocupem que não vai ter spoiler. Continuar lendo